2# ENTREVISTA 10.9.14

EDUARDO COSTANTINI - "SE QUISER, O BRASIL PODE TER DE VOLTA O 'ABAPORU'"

Colecionador argentino diz que a tela de Tarsila do Amaral pode ficar para sempre no Pas se for criada uma sucursal do Malba no Brasil e critica o decreto presidencial que restringe a mobilidade de arte
por Ana Weiss 

NOVO LANCE - Eduardo Costantini lana empreendimento imobilirio em Miami em que os proprietrios tero sociedade em obras de arte de Jeff Koons e Beatriz Milhazes

O portenho Eduardo Costantini protagonizou h quase duas dcadas uma derrota histrica do Brasil contra a Argentina. O arremate por US$ 1,4 milho do Abaporu, tela de Tarsila do Amaral que hoje ocupa como um trofu lugar central no Malba, Museu de Arte Latino-Americano de Buenos Aires, fundado por ele. Mesmo sabendo que seu nome causa calafrios em amantes da arte e colecionadores deste pas, v crescer entre a torcida adversria os principais clientes de seu novo negcio, um condomnio de luxo em Miami, a ltima construo em frente ao mar do disputado bairro de Bal Harbour.

"Propus a Dilma Rousseff a fundao de um novo Malba no Brasil, com o 'Abaporu' em seu acervo permanente. Fiquei sem nenhuma resposta. A proposta ainda est de p"

Os donos dos apartamentos, que custam de US$ 3 milhes a US$ 30 milhes, em boa parte brasileiros, levam com a escritura a sociedade nas obras de arte dispostas no hall de entrada, com peas de alguns dos artistas vivos mais caros do mundo, como o americano Jeff Koons e a brasileira Beatriz Milhazes. No terceiro casamento, o pai de sete filhos no revela sua fortuna pessoal em obras de arte que guarda em casa, mas diz que, alm de trazer de volta o quadro modernista, compartilharia com o Brasil o acervo de seu museu avaliado em US$ 200 milhes, contanto que se erguesse aqui uma filial do Malba.

"O alagoano Jonathas de Andrade est entre os artistas brasileiros que merecem ateno e devem ter seu trabalho disputado no mercado de arte em breve"

Isto - Muitos brasileiros acreditam que mesmo o Abaporu no tendo sido arrematado por um brasileiro deveria permanecer no Brasil. O que o sr. pensa a esse respeito?

Eduardo Costantini - Em 1995, eu pude comprar a obra porque no houve proposta brasileira. Em 2011 (quando emprestou o quadro para um evento em Braslia), propus  presidenta Dilma Rousseff que tentasse convocar um grupo de empresrios brasileiros para fundar um novo Malba, um segundo museu no Brasil, com o Abaporu em seu acervo permanente. Fiquei sem nenhuma resposta. A proposta ainda est de p.

Isto - Como seria esse novo Malba e quem seriam os seus gestores? 

Eduardo Costantini - O Malba Brasil seria uma instituio independente, com maioria brasileira no conselho. Isso seria essencial para a integrao do museu com a comunidade. O Malba de Buenos Aires forneceria parte de sua coleo permanente, relacionamento institucional e mais de uma dcada de experincia intensiva para materializar a potencialidade da instituio e da sinergia entre ambos.

Isto - Houve alguma mudana em nosso pas nos ltimos 20 anos em relao  cultura? 

Eduardo Costantini - Acho que sim, o Brasil est melhorando. Os latino-americanos esto comeando a apreciar a sua prpria arte. H at uma reavaliao da produo brasileira e latino-americana no mundo inteiro, no s do ponto de vista econmico, mas tambm cultural.  um processo lento, mas acho que estamos na direo certa.

Isto - Qual foi a ltima vez que o sr. recebeu um pedido de emprstimo do Abaporu no Brasil? Como  a poltica de emprstimos do Malba?

Eduardo Costantini - O ltimo pedido que recebemos (e atendemos) foi da presidenta Dilma Rousseff, em maro de 2011, para um evento realizado em Braslia, no Palcio do Planalto. Minha mulher (a brasileira Clarice Costantini) e eu viemos prestigiar a mostra, uma exposio sobre mulheres artistas. Foi algo muito emocionante. Qualquer uma das peas mais icnicas do museu tem um pedido de emprstimo cuidadosamente avaliado. So muitos os fatores que se deve levar em conta, como a qualidade das condies do local e a segurana que oferece. Muita gente viaja do Brasil e de outros pases para Buenos Aires especialmente para ver ou estudar o Abaporu.

Isto - O sr. deve ter acompanhado a publicao do decreto que d ao Estado brasileiro o direito de definir obras de interesse pblico e interferir na sua circulao, emprstimo e preo, inclusive de peas de colees privadas. O que pensa dessa ao? 

Eduardo Costantini - Em primeiro lugar, existe uma questo de arbitrariedade: quais so os critrios que vo definir o que pode ou no sair? Em segundo, restringir a mobilidade de uma obra de arte vai contra a valorizao e a livre circulao;  um grande impedimento no funcionamento do mercado. 

Isto - Por que o sr. comeou a colecionar arte?

Eduardo Costantini - A primeira vez que pus os ps em uma exposio foi em 1968, eu tinha ento 22 anos. Havia uma galeria de arte chamada Atelier, a duas quadras da minha casa em Acassuso, provncia de Buenos Aires, onde um dia eu vi, pela janela, o trabalho do artista argentino Antonio Berni (1905-1981), de seu ltimo perodo. Voltei  galeria dias depois para perguntar o preo. Eu no tinha dinheiro suficiente para comprar a pintura, uma vez que tinha acabado de comear a trabalhar, ento eu comprei dois trabalhos menores de Leopoldo Presas e Ivan Vasileff. E paguei em prestaes. A compra desses dois trabalhos foi o comeo, mas depois continuei comprando arte esporadicamente. Naquela poca, eu no tinha ideia de que um dia me tornaria um colecionador. 

Isto - O sr. tem arte brasileira em sua casa? 

Eduardo Costantini - Minha mais recente aquisio  brasileira, uma srie de fotos de Anna Maria Maiolino chamada Between Lives. Em casa tenho duas peas muito importantes de Beatriz Milhazes. Tambm outras de Anna Maria Maiolino, Mira Schendel, Geraldo de Barros, Artur Lescher, Iran do Esprito Santo, Augusto de Campos. Para a fundao do Malba doei peas-chave da arte brasileira agora em exposio permanente no museu. Alm do Abaporu, obras de Candido Portinari, Emiliano Di Calvacanti, Maria Martins, Hlio Oiticica, Lygia Clark, Antonio Dias e  Waltercio Caldas, entre muitos outros.

Isto - Em quais nomes da arte contempornea brasileira o sr. aposta que se tornaro os prximos grandes alvos do mercado?

Eduardo Costantini - Artistas como Ernesto Neto, Beatriz Milhazes, Adriana Varejo, Rosngela Renn e Jac Leirner j esto consagrados internacionalmente. Nomes como Jonathas de Andrade, Marcius Galan e os argentinos Nicolas Robbio e Carla Zaccagnini (que vivem e trabalham no Brasil) merecem ateno, pois devero ser disputados em breve no cenrio de arte contempornea.

Isto - Como os museus e as instituies culturais podem ajudar a Argentina neste momento de crise financeira? 

Eduardo Costantini - A melhor maneira de ajudar o nosso pas  continuar com o nosso programa, uma vez j planejado. Passamos por vrias crises na Argentina. Alis, o Malba foi fundado em Buenos Aires no dia 21 de setembro de 2001, apenas dez dias depois do 11 de setembro, e menos de 90 dias antes de uma das maiores crises na Argentina desde a Grande Depresso.

Isto - Como os proprietrios de unidades do seu empreendimento em Miami, o Oceana Bal Harbour, se tornaro proprietrios das obras de arte ali presentes?

Eduardo Costantini - Os condminos sero scios das obras de arte. As peas que ficaro no Oceana Bal Harbour  no podero ser vendidas dentro dos primeiros cinco anos e, posteriormente, caso haja um consenso majoritrio, as peas podero ser comercializadas e uma reunio dever ser feita para decidir o que ser feito com o dinheiro arrecadado da venda.

Isto - Em quanto esto orados os seguros de obras como as esculturas de Jeff Koons, que ocuparo o hall do edifcio de Miami? Como ser o sistema de segurana? 

Eduardo Costantini - Ainda no temos um valor exato do seguro das peas. As esculturas de Jeff Koons do Oceana Bal Harbour ficaro posicionadas entre as duas torres e  no jardim. Dessa forma, apesar de elas serem propriedade privada, quem estiver andando do lado de fora conseguir observ-las. Elas sero monitoradas por cmeras 24 horas por dia e pesam mais de trs toneladas. Para remov-las,  seriam necessrios caminho, guindastes e um comboio de trabalhadores.

Isto - Na sua opinio, por que os brasileiros se interessam cada vez mais por Miami? 

Eduardo Costantini - Os brasileiros sempre fizeram parte da cultura de Miami. Influenciaram-na com sua arte, sua msica e sua culinria. A grande valorizao do imvel brasileiro tornou Miami acessvel aos brasileiros que gostariam de ter um lugar de frias ou de um investimento nos EUA como um paraso seguro.

Isto - O sr. concorda com o presidente da Fiesp, Benjamin Steinbruch, que diz que s louco investe no Brasil?

Eduardo Costantini - O Brasil  um grande pas com enormes recursos naturais e capital humano, que eu espero que continue a prosperar como um jogador importante na economia mundial. J analisamos (a Consultatio, empresa responsvel pelo condomnio em Miami) no passado projetos para o Brasil. Se aparecer uma oportunidade no presente, por que no?

